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glenis steckel

  • Foto do escritor: GLENIS STECKEL
    GLENIS STECKEL
  • 14 de set. de 2025
  • 5 min de leitura

Preservação da Amazônia, Sustentabilidade e o Potencial dos Créditos de Carbono: Um Olhar Jurídico e Ambiental

A preservação da Amazônia continua a ser um dos maiores desafios ambientais e jurídicos do século XXI. Com um papel crucial na regulação do clima global, a maior floresta tropical do mundo não é apenas um patrimônio natural do Brasil, mas um bem comum de toda a humanidade. Contudo, a pressão de atividades econômicas como a mineração, o agronegócio e o desmatamento ilegal têm colocado em risco a sustentabilidade desse bioma, exigindo soluções inovadoras e eficazes.

Entre as alternativas mais discutidas ante a COP30, destaca-se a criação e comercialização de créditos de carbono como uma estratégia eficaz para a preservação da Amazônia e a promoção da sustentabilidade. O conceito de créditos de carbono surge como uma ferramenta econômica ligada ao combate às mudanças climáticas, permitindo que países, empresas ou indivíduos que emitem gases de efeito estufa compensem suas emissões investindo em projetos que preservam ou restauram áreas florestais, como a Amazônia.

Este artigo visa abordar o papel dos créditos de carbono como mecanismo de sustentabilidade para a Amazônia, explorando a viabilidade de sua aplicação, o impacto ambiental e os desafios jurídicos que envolvem sua criação e regulamentação.


1. A Amazônia: O Papel Fundamental na Regulação Climática Global

A Amazônia desempenha uma função essencial na regulação climática mundial, sendo responsável por absorver grandes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera. Estima-se que a floresta armazene aproximadamente 100 bilhões de toneladas de carbono, ou cerca de 10 anos de emissões globais. Sua preservação é, portanto, fundamental para mitigar os impactos das mudanças climáticas, especialmente em um momento de aumento constante da temperatura global.

Porém, o avanço do desmatamento e das queimadas tem liberado grandes quantidades de CO₂, contribuindo diretamente para o aquecimento global. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na Amazônia brasileira aumentou 34,5% em 2020, resultando em uma liberação considerável de carbono na atmosfera.

Diante deste cenário, a preservação da Amazônia se torna uma prioridade global. A criação de mecanismos de mercado como os créditos de carbono surge como uma possibilidade de reverter essa situação, incentivando práticas de conservação e recuperação das florestas.


2. O Conceito de Créditos de Carbono: Como Funcionam?

Os créditos de carbono são unidades de medida que representam a quantidade de dióxido de carbono (CO₂) ou gases de efeito estufa (GEE) que deixam de ser emitidos ou que são removidos da atmosfera devido a um projeto ambiental específico. Cada crédito de carbono corresponde a uma tonelada métrica de CO₂ evitada ou removida.

Esses créditos podem ser gerados por uma série de atividades, como:

  • Preservação de florestas nativas: através da implementação de políticas de conservação e de manejo sustentável;

  • Restauração de áreas degradadas: projetos que visam a recuperação de ecossistemas danificados pela atividade humana;

  • Inovação tecnológica: sistemas que capturam e armazenam carbono da atmosfera, como as tecnologias de captura e sequestro de carbono (CCS, na sigla em inglês).

Uma vez gerados, os créditos de carbono podem ser comercializados no mercado voluntário ou regulado, permitindo que empresas ou países compensem suas emissões investindo em projetos de conservação, restauração ou novas tecnologias ambientais.


3. O Potencial da Amazônia para a Criação de Créditos de Carbono

A Amazônia, com sua vasta biodiversidade e capacidade de absorver carbono, representa um enorme potencial para a geração de créditos de carbono. O Brasil, por meio da Lei de Mudança Climática (Lei nº 12.187/2009), já se comprometeu com metas de redução de emissões de gases de efeito estufa, e a criação de projetos de crédito de carbono é uma das formas de cumprir esses compromissos.

Entre os projetos em andamento, destacam-se as iniciativas de Manejo Florestal Sustentável e conservação de Unidades de Conservação, que não apenas preservam áreas florestais, mas também permitem a geração de créditos de carbono. Além disso, a restauração de áreas desmatadas, por meio do programa REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), também está no centro das discussões sobre o potencial da Amazônia na criação de créditos de carbono.

Esses projetos têm o poder de gerar uma enorme quantidade de créditos de carbono, atraindo investimentos para a região e gerando incentivos para a proteção e recuperação da floresta. Mais importante, eles oferecem uma alternativa econômica viável para as comunidades locais, que podem se beneficiar da comercialização dos créditos de carbono, sem precisar recorrer a atividades prejudiciais ao meio ambiente.


4. Desafios Jurídicos na Criação de Créditos de Carbono na Amazônia

Apesar do grande potencial, a implementação de projetos de créditos de carbono na Amazônia enfrenta uma série de desafios jurídicos e institucionais. A regulamentação do mercado de carbono no Brasil ainda está em processo de amadurecimento, o que gera incertezas para os investidores e dificultam a criação de novos projetos.

A questão da titularidade e gestão das terras é um dos principais obstáculos. Muitas áreas de conservação e restauração na Amazônia pertencem a povos indígenas, comunidades tradicionais e populações ribeirinhas, cujos direitos sobre as terras nem sempre são reconhecidos pelo Estado. A falta de uma legislação clara sobre a distribuição de benefícios dos créditos de carbono pode levar a conflitos e injustiças sociais, prejudicando aqueles que, de fato, contribuem para a preservação da floresta.

Além disso, a fiscalização e monitoramento dos projetos de créditos de carbono também representam desafios. A eficiência do sistema de monitoramento, a verificação da quantidade de carbono realmente armazenado, e a transparência dos processos são aspectos que exigem aprimoramento contínuo, para garantir que os créditos de carbono gerados representem uma real contribuição para a mitigação das mudanças climáticas.


5. O Mercado de Carbono e Seus Desafios Regulatórios

A criação de um mercado de carbono eficiente e sustentável depende de uma regulação robusta, capaz de garantir a transparência e a credibilidade dos projetos. A NDC (Contribuição Nacional Determinada) do Brasil, que visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa, e o acordo internacional de Paris são marcos importantes para o desenvolvimento desse mercado. Contudo, a regulamentação do mercado de créditos de carbono no Brasil ainda está em um estágio embrionário, e é fundamental que o país desenvolva uma estrutura jurídica clara para a comercialização de créditos de carbono.

Além disso, a interação com o mercado internacional e a validação de projetos por organismos internacionais, como a ONU e a VCS (Verified Carbon Standard), também são pontos cruciais. Para que o Brasil se destaque na criação de créditos de carbono da Amazônia, é necessário que os projetos atendam aos critérios globais de certificação, garantindo a aceitação internacional e a competitividade no mercado de carbono.


6. O Papel do Setor Privado e das Comunidades Locais

O setor privado desempenha um papel essencial na criação e comercialização de créditos de carbono. Empresas de grande porte, especialmente aquelas com compromissos de sustentabilidade, podem investir em projetos de preservação florestal e compensação de emissões. Ao mesmo tempo, é fundamental que os benefícios dos projetos cheguem às comunidades locais, garantindo que elas sejam incluídas nas negociações e beneficiadas pela geração de créditos de carbono.

Projetos como o Programa Bolsa Verde e iniciativas de agricultura sustentável demonstram que é possível alavancar a economia da região sem comprometer os recursos naturais. As parcerias público-privadas e os investimentos em infraestrutura ambiental são fundamentais para garantir a longevidade desses projetos.


7. O Caminho à Frente: Sustentabilidade e Legalidade

A criação de créditos de carbono na Amazônia oferece uma oportunidade única de conciliar a preservação ambiental com o desenvolvimento econômico. Entretanto, para que essa estratégia seja eficaz, é essencial que se superem os desafios jurídicos e institucionais, garantindo uma regulação clara, justa e eficiente. O mercado de carbono pode ser uma ferramenta poderosa, mas depende de uma abordagem coordenada e integrada entre o Estado, as empresas, as comunidades locais e a sociedade civil.

O futuro da Amazônia e a sustentabilidade da floresta estão intimamente ligados à capacidade de criar modelos econômicos inovadores, como os créditos de carbono, que incentivem a proteção da floresta ao mesmo tempo em que beneficiam os atores locais. Para isso, é fundamental que o Brasil continue a investir em políticas públicas que promovam a integração da preservação ambiental com o desenvolvimento econômico sustentável.


Por Glênis Gomes Steckel

Advogado

Pós-Graduado em Direito Ambiental.

 
 
 

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