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A COP30 no Coração da Amazônia: Por Que Belém, no Pará, e Não o Amazonas?A escolha de Belém, capital do Pará, para sediar a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) em nove

  • Foto do escritor: GLENIS STECKEL
    GLENIS STECKEL
  • 9 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Por Dr. Glênis Steckel


A COP30 no Coração da Amazônia: Por Que Belém, no Pará, e Não o Amazonas?

A escolha de Belém, capital do Pará, para sediar a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) em novembro de 2025, marcou um momento histórico: seria a primeira vez que a cúpula do clima seria realizada em uma cidade da Amazônia. No entanto, a decisão de não escolher o Amazonas, estado que possui a maior cobertura florestal do bioma e um modelo de desenvolvimento voltado à preservação, gerou discussões.

A realização do evento no Pará, estado que historicamente enfrenta o maior índice de desmatamento na Amazônia Legal, carrega uma importância estratégica e simbólica distinta, focada na necessidade de ação e transformação.

 O Simbolismo de Estar na Amazônia

A principal razão para o Brasil se candidatar a sediar a COP30 foi levar o debate climático para dentro da Amazônia. Essa localização é crucial:

  • Vozes Locais em Foco: Discutir a Amazônia em Paris ou Berlim é diferente de fazê-lo na região. A COP30 em Belém eleva a visibilidade e dá centralidade às vozes dos povos indígenas, comunidades ribeirinhas e extrativistas, que são os guardiões da floresta e paradoxalmente os mais afetados pela crise climática.

  • Ação Imediata: A realização do evento na entrada da maior floresta tropical do mundo destaca a urgência em proteger este bioma e reforça a responsabilidade internacional compartilhada em sua preservação.

Por Que Belém, no Pará, e Não Manaus, no Amazonas?

Apesar de o Amazonas ter, em tese, uma vantagem ambiental por sua maior cobertura vegetal, a escolha de Belém foi influenciada por uma combinação de fatores políticos, de infraestrutura e a intenção de confrontar as contradições do desmatamento.

1. O Peso Político e a Contradição do Desmatamento

A escolha de Belém foi fortemente impulsionada pela articulação política do governador do Pará, Helder Barbalho, que se mostrou proativo na candidatura.

O fato de o Pará ser o estado com o maior índice de desmatamento na Amazônia Legal, por outro lado, transforma a escolha em um desafio e uma oportunidade:

  • Confrontar a Realidade: Sediar a COP30 no estado que é o "campeão do desmatamento" coloca os holofotes na contradição e na necessidade de reverter urgentemente essa situação. A conferência se torna um catalisador para que o estado demonstre um compromisso real com a conservação e a transição para uma bioeconomia sustentável.

  • COP da Implementação: A escolha em Belém sinaliza que a COP30 precisa ser a "COP da implementação", onde não bastam gestos simbólicos; é necessária a ação concreta para conter a devastação.

2. Fatores de Infraestrutura e Logística

Manaus e Belém são as maiores capitais da região, mas Belém foi considerada mais viável em termos de infraestrutura de apoio para receber um evento do porte da COP30, que deve atrair mais de 50 mil participantes:

  • Acesso e Mobilidade: Belém, por estar na foz do rio Amazonas e ser um grande porto, é considerada a porta de entrada da Amazônia, com maior facilidade logística.

  • Investimentos Acelerados: A escolha da cidade acelerou investimentos federais e estaduais em infraestrutura (saneamento, mobilidade urbana, portos, turismo e hotelaria), deixando um legado permanente de desenvolvimento sustentável para a população local. A falta de capacidade hoteleira foi contornada com o planejamento de usar navios de cruzeiro para ampliar a hospedagem.

O Legado da COP30 em Belém

A realização da COP30 em Belém é mais do que um evento; é um catalisador para uma transformação regional. O governo brasileiro e o Pará têm apostado em:

  • Transformação Produtiva: Usar a oportunidade para transformar Belém no que o governo tem chamado de "Vale do Silício" da Amazônia, unindo ciência, inovação e sabedoria tradicional para converter a biodiversidade em oportunidades sustentáveis (bioeconomia).

  • Justiça Climática e Social: A COP30 deve acelerar a regularização fundiária de territórios indígenas e comunidades extrativistas, reconhecendo seus direitos como uma estratégia fundamental para a conservação. As discussões se concentrarão em uma transição justa, que priorize as populações mais vulneráveis.

Em suma, a escolha do Pará, apesar do Amazonas ter uma situação de preservação mais vantajosa no papel, força uma discussão mais profunda e um compromisso de ação no epicentro do desafio climático brasileiro. A COP30 em Belém será o grande teste de credibilidade da diplomacia ambiental brasileira e uma chance única de colocar o futuro da floresta, e do planeta, em uma nova trajetória.

 

O Pano de Fundo Político: A Articulação Vencedora do Pará e a Postura do Amazonas

A escolha de Belém, no Pará, como sede da COP30 em 2025, foi o resultado de uma combinação de fatores técnicos, logísticos e, crucialmente, de intensa articulação política. A ausência do Amazonas nesse papel de sede não se deu apenas por questões de infraestrutura, mas também pela percepção de uma falta de engajamento político e estratégico proativo por parte do governo do estado em comparação com o Pará.

A Articulação Política Decisiva de Belém (Pará)

O fator político foi, para muitos analistas, o grande diferencial na escolha de Belém:

  • Liderança e Proatividade: O governador do Pará, Helder Barbalho, demonstrou um interesse político precoce e vigoroso na candidatura. Ele se articulou diretamente com o Governo Federal e com a cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU), vendendo a ideia de que sediar a COP no Pará seria um ato de coragem e compromisso com a reversão do desmatamento (já que o Pará é o estado com maior devastação histórica da Amazônia Legal).

  • Aliamento com a Agenda Federal: O governo do Pará se alinhou de forma mais evidente com a agenda ambientalista do presidente Lula, que fez da política climática e da Amazônia um pilar de sua gestão. Este alinhamento facilitou a liberação de recursos e a coordenação de esforços de infraestrutura necessários para o evento.

  • Oportunidade de Transformação: A narrativa política do Pará foi de que a COP30 não seria apenas uma conferência, mas um catalisador para a reestruturação da economia do estado, focando na bioeconomia e na sustentabilidade, aproveitando a pressão internacional para acelerar mudanças.

A Percepção de "Falta de Vontade Política" no Amazonas

Apesar de Manaus, capital do Amazonas, possuir um parque hoteleiro robusto e o prestígio de abrigar a maior floresta tropical contínua do mundo, houve fatores que a distanciaram da escolha:

  1. Distanciamento Político: O então governador do Amazonas, Wilson Lima, tinha um histórico de maior alinhamento com a agenda política anterior, que era frequentemente crítica às políticas ambientais federais e internacionais. Esse desalinhamento e a percepção de uma postura mais bolsonarista na região Norte diminuíram a visibilidade e o destaque de Manaus perante o governo federal e a comunidade internacional que pressionava pela escolha de uma sede na Amazônia com compromisso claro.

  2. Visão da BR-319 e Desmatamento: O Amazonas, embora tenha a maior área de floresta preservada, enfrentava altos índices de desmatamento em certas regiões, muitas vezes ligados à discussão sobre a pavimentação da BR-319, um tema que gera controvérsia ambiental. Esse cenário, aliado a uma postura que parecia menos proativa na agenda de preservação, enfraqueceu sua candidatura.

  3. Prioridades Diferentes: Observadores e comentaristas sugeriram que o governo do Amazonas não demonstrou o mesmo nível de entusiasmo e dedicação na articulação da candidatura quanto o Pará, focando em outras prioridades estaduais. Para sediar um evento do porte da COP, a vontade política de liderança e a capacidade de mobilização de recursos e de alianças são fundamentais, e o Pará se destacou nesse aspecto.

O Foco no Desafio e na Implementação

A escolha de Belém, portanto, não foi uma ode à preservação já existente (como seria em grande parte do Amazonas), mas um chamado à ação e à responsabilidade no estado que é o epicentro histórico do desmatamento. A decisão política federal e da ONU foi estratégica ao colocar a COP30 em um local que precisa urgentemente demonstrar a reversão de sua trajetória ambiental, transformando a contradição em uma poderosa alavanca para a implementação de políticas climáticas e de bioeconomia.

 


 
 
 

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© Glenis Steckel - Advogados Associados. 

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